Aparências

Texto de Joel S. Goldsmith

Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça (João, 7:24).

O Mestre ensinou seus discípulos a evitar o julgamento de pessoas e coisas quando disse: “Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus” (Marcos, 10:18). Se você não deve chamar Jesus de bom, então não chame de boa nenhuma pessoa ou coisa. Não chame a saúde de boa, nem a riqueza, nem a felicidade. Chame apenas Deus de bom. Nunca chame de bom qualquer efeito, porque o bom está na causa.

É também falso olhar para alguma coisa e chamá-la má. Ela não é boa nem má. Não tem poder positivo nem poder negativo, porque todo poder está em Deus. No momento em que você puder tirar poder positivo e poder negativo de um efeito, você obedeceu ao ensinamento de Jesus em dois pontos. Você não está chamando de boa uma pessoa, mas está chamando bom a Deus. E não está temendo o mal de Pilatos, porque está reconhecendo Deus como o único poder. Assim, você afastou o bem e o mal do efeito e agora tem todo poder em Deus.

Não há meios de se fazer um julgamento justo pelas aparências. Não olhe para o que parece ser uma boa condição, julgando-a boa porque não é. Sua única bondade está em Deus. Não olhe para qualquer mal, chamando-o de mal, porque isso é julgar apenas pelas aparências. Você não tem conhecimento do que jaz atrás das aparências, de modo que é uma questão de exercitar-se a si mesmo, ser capaz de olhar para as aparências humanas tanto do bem como do mal e dizer: “Nem eu o julgo. Nem declaro que você é bom ou mau. Direi que você deve ser espiritual, porque Deus criou tudo que existe e Deus é Espírito”. Este último ponto é muito importante, porque a cura do Caminho Infinito é praticada nessa base.

Se quisermos julgar com justiça, eis a verdade: Deus é a vida e a vida é eterna. Eis a verdade. Mas se hoje eu fosse dizer a você que está bem ou mal de saúde, que tem integridade ou não, eu estaria julgando pelas aparências. Eu não conheço a realidade sobre você; conheço apenas a aparência que você está apresentando.

Recusando o julgamento, nem condenando nem o julgando, percebo que nada conheço sobre você, exceto que você é Deus que aparece como um ser individual. Eu não sei se você é bom ou mau, se está doente ou com saúde, mas que você é Deus aparecendo, e nisso insisto. Tudo que Deus é, você é. Tudo que Deus possui, você possui. Deus constitui seu ser. Eu não posso ver isso com meus olhos. Com meus olhos, posso apenas julgar pelas aparências.

Fazer um julgamento justo dá a você domínio sobre seus conceitos. O julgamento justo é a compreensão de que Deus é a realidade do ser individual. Sabendo disso, você não se tornou um indivíduo. Você mudou seu conceito do indivíduo; você se absteve de julgamento. Agora você sabe quem é o indivíduo: Cristo, o filho de Deus. Isso é ter domínio sobre seu conceito.

No momento em que qualifico e digo que você é bom, mau, rico, pobre, saudável, doente, jovem ou velho, estou no reino do julgamento, dos conceitos e das aparências e assim não farei progressos.

Deus deu autoridade ao homem no primeiro capítulo do Gênese. Ele foi feito à sua imagem e semelhança. Nunca foi dada autoridade a um ser humano, mas o homem feito à imagem e semelhança de Deus é o homem que você é, quando deixa de aceitar as aparências. Você é a imagem e semelhança de Deus apenas quando deixa de ter conceitos, quando deixa de ter opiniões ou crenças sobre este universo, em lugar de ouvir a comunicação espiritual. Então, sua mente fica inteiramente livre de quaisquer opiniões ou julgamentos e você é o filho de Deus. Tudo o que o Pai tem flui através de você.

Quanto mais você estiver vendo uma pessoa ou uma condição, como tendo poder, e estiver julgando o bem e o mal, mais mergulhado estará no sonho. No momento em que puder afastar seu julgamento e perceber: “você não é bom nem mau; você não está morto nem vivo; você não é rico nem pobre: você é Espírito”, você estará despertando, saindo do sonho, para a consciência mística da identidade. Quando essa compreensão chega, o sonho já não mais existe. Isso é algo que deve ser feito individualmente e também coletivamente.

Joel S. Goldsmith – “O Despertar da Consciência Mística” – Ed. Pensamento

Em nossa vida mundana, fomos ensinados a julgar, a criticar e a condenar os outros o tempo todo, em qualquer parte e por qualquer coisa que fira o nosso senso do que é certo ou errado. Neste caso, entretanto, devemos alterar toda a nossa atitude para que nunca sejamos acusados de julgar, de criticar ou de condenar as pessoas. Em vez disso, cabe-nos reconhecer que a fonte de tudo quanto nos parece errado é apenas a mente carnal, destituída de poder, e que, a despeito das aparências, quem procurar a ajuda dos meios espirituais a receberá. O princípio de “não julgar pelas aparências” aplica-se a todos os que encontramos ao longo da vida, estejam ou não à procura de ajuda espiritual.

Joel S. Goldsmith – “O Suprimento Invisível” – Ed. Cultrix

Quando nos pedem ajuda, nossa primeira reação é o desejo de mudar a aparência do mal em aparência do bem. Entretanto, se quisermos viver espiritualmente, precisamo-nos compenetrar de que o objetivo do ministério espiritual não é mudar doença em saúde. A saúde é temporária, e a que temos hoje poderá converter-se em doença amanhã, na próxima semana ou no próximo ano. A finalidade do ministério espiritual não é condenar publicamente o mal e tentar fazer o bem. Seu objetivo é, antes de nada, ensinar-nos a desprezar as aparências boas ou más e manter-nos atentos ao Caminho do Meio, compenetrados de que precisamente onde parece encontrar-se o bem ou o mal, o que existe é a realidade do Espírito.

A má aparência de hoje poderá converter-se em boa aparência amanhã e, como bem sabemos, toda boa aparência pode logo tornar-se má. Um dia de paz na terra pode ser apenas a pausa momentânea que precede outra guerra; a saúde perfeita de hoje não passa de uma condição temporária que os micróbios ou o envelhecimento poderão mudar. Vistos humanamente, estamos como que num carrossel, sempre a rodar, rodar, rodar. Estamos sempre a oscilar como um pêndulo, entre a doença e a saúde, entre a pobreza e a riqueza, entre a guerra e a paz, para trás e para frente, sem chegarmos à parte alguma.

Mas no Meu reino não há pares de opostos. Meu reino é um reino espiritual, onde nada é tocado por influências contraditórias. Meu reino é dirigido e protegido pelo divino Princípio, ou Deus, que a tudo mantém e sustenta. No Meu reino não há trevas. Esta declaração parece dar a entender que as trevas sejam alguma coisa má. No entanto, quando alcançamos o Terceiro Grau, teremos chegado à estatura espiritual do Salmista, que disse: “as trevas e a luz são a mesma coisa para Ti”.

Trevas e luz são uma coisa só. Aos olhos de Deus não há diferença entre elas. No reino espiritual não há luz nem trevas: há somente Espírito, uma Luz que não tem semelhança alguma com o que conhecemos como luz.

Luz, em sentido espiritual, é consciência iluminada, não por uma luz, mas pela Sabedoria. A expressão “Eu era cego, e agora vejo” não se refere à cegueira ou falta de visão física. É um modo figurado de declarar que estávamos na ignorância, mas agora alcançamos a Sabedoria. Freqüentemente se representa a ignorância por trevas e a sabedoria por luz, mas, na realidade, não há trevas nem luz para aqueles que vivem acima dos opostos.

Requerem-se meses, e às vezes anos de experiência espiritual para se compreender que no Meu reino trevas e luz são a mesma coisa, e que neste reino não procuramos mudar as trevas em luz. Ou livrar-nos das trevas para obtermos a luz. Trevas e luz são uma coisa só.

Alcançar esta concepção representa grande salto para qualquer pesquisador, mas para o ignorante da sabedoria espiritual e não treinado em metafísica e misticismo, é salto, ainda maior, – um salto quase impossível – conceber ou aceitar a idéia que doença e saúde são a mesma coisa. Na realidade, não passam dos extremos opostos da mesma vara. Quando individualmente podemos afirmar com convicção que “pelo que me toca, trevas, ou luz, dá tudo no mesmo. Não estou tentando livrar-me de uma para obter a outra: estou procurando compreender somente a sabedoria espiritual, a verdade espiritual, a divina Presença” – então é que começamos a compreender a natureza espiritual deste Universo.

É quando tentamos livrar-nos de algo ou procuramos conseguir algo, que abandonamos o mundo espiritual em troca do mundo das concepções humanas. Nem doença nem saúde exercem qualquer papel na vida espiritual: tudo o que existe na vida espiritual é Deus, o Espírito, infinita e eternamente manifesto como ser individual incorpóreo.

O ser incorpóreo não pode ser conhecido por meio dos sentidos da vista, da audição, do gosto, do tato ou do olfato. Pode ser experimentado somente em nossa consciência interna, mas quando compreendemos e percebemos diretamente que trevas e luz são a mesma coisa. E o que é essa coisa? – Ilusão mortal, maya, aparência. Tudo o que percebemos através dos sentidos – doença e pobreza hoje, ou saúde e riqueza amanhã –, é ilusão. Não veremos a Realidade enquanto não contemplarmos o ser espiritual, incorpóreo, através de nosso sentido espiritual.

A revelação e compreensão da unicidade do Poder ajudam-nos a alcançar aquele nível de consciência em que já não procuramos converter o estado negativo em positivo. Quando nos conscientizamos da existência de um só poder, cessamos não só de procurar poderes materiais para prover às nossas necessidades, mas também de andar em busca de poderes espirituais.

Se existe um só poder, então nada há sobre o que, contra o que ou a favor do que, possamos usá-lo. Que quer isto dizer, em essência? Que significa alcançar um nível de consciência em que se abandona todo desejo de empregar Deus como uma força? Não será isto liberar a Deus de responsabilidades? Não será exatamente isto o que temos que aprender a fazer?

Eis a vida mística: não nos rejubilamos com a boa aparência humana, mas olhamos para além do bem e do mal, para além das aparências humanas, e contemplamos a natureza do Cristo. Podemos fazer isto. Todos nós podemos fazê-lo. É verdade que isto requer alguma disciplina, algum treino, porque o que estamos procurando fazer é superar os efeitos de centenas de gerações daqueles que nos deixaram como herança a crença em dois poderes. Estamos pondo de lado tanto o bem com o mal, para contemplar o que é o Espírito; estamos pondo de lado a saúde e a doença, a fim de nos identificarmos com o Cristo – nossa individualidade permanente em Deus.

Somente nossa individualidade espiritual de filhos de Deus nos permite comer do “manjar” que o mundo não conhece. Não é por sermos boas criaturas humanas que qualquer de nós pode proclamar-se “co-herdeiro com Cristo”, porque as boas qualidades humanas estão tão longe do céu quanto as más. Os escribas e fariseus eram o que havia de melhor entre os hebreus, eram os mais religiosos, os maiores adoradores do Deus único, os maiores protetores do templo. Ser bons, era a sua obsessão. Não obstante, o Mestre disse aos seus seguidores que a bondade deles precisava transcender a dos escribas e fariseus. Isso, humanamente, teria sido quase impossível, porque estes, praticamente, já haviam atingido a perfeição.

Verdadeira bondade depende de nossa capacidade de compreender que o Reino de Deus nos pertence em virtude de nossa identidade espiritual, e não de nossa bondade humana. Isso implica em sermos bastante corajosos para lançar fora os pensamentos relacionados com todas as nossas maldades do passado e do presente e, ao mesmo tempo, todos os pensamentos referentes à nossa bondade – e não em condenarmos o mal que tenhamos feito e tomarmos a nosso crédito o bem que tenhamos praticado –, e afirmarmos somente a nossa identidade espiritual em Deus. Nesta ligação com Deus, descobriremos que somos um com Ele, que somos co-herdeiros com Cristo de todas as riquezas celestes. Mas enquanto pensarmos que os nossos maus caminhos estejam nos mantendo afastados dessas riquezas, ou que o bem que pratiquemos esteja nos aproximando delas, estaremos em caminho errado.

Tão longe da Luz está o que crê que algum pecado, alguma desgraça temporária ou algum erro por ação ou omissão o separa de Deus, quanto aquele que acredita que sua bondade humana lhe esteja granjeando a graça de Deus. Ninguém alcança a graça de Deus apenas por sua bondade humana: a graça de Deus se alcança pela realização da identidade espiritual. Em reconhecendo nossa identidade espiritual, seremos espiritualmente bons sob todos os aspectos. Não há meio de se saber como essa bondade corresponde à bondade humana, mas a integridade espiritual vem somente através de nossa conexão com Deus, não como conseqüência de nossas boas qualidades ou de nossos sacrifícios ou esforços pessoas.

Nossas experiências humanas do passado e do presente, tanto boas como más, constituem o sonho mortal, mas, em nossa Alma, somos o Ser-de-Deus, isto é, somos criaturas divinas; em nossa Luz interna, somos filhos de Deus; nas profundezas de nosso ser interno, somos um com Deus; e temos um “manjar” que, embora possamos não ter conquistado ou merecido, recebemos por herança divina.

Joel S. Goldsmith – “Setas no Caminho do Infinito” – Ed. Alvorada

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